Adolescentes portugueses têm sono em risco

O sono é fundamental à vida e a sua necessidade, tão básica como comer e beber, adquire variações naturais ao longo da vida. Em idade pediátrica, nomeadamente na adolescência, o sono, para além das suas funções no que respeita ao equilíbrio energético, metabólico e imunitário, tem um papel crucial no adequado desenvolvimento cognitivo, na aprendizagem e consolidação da memória.
Nesta fase da vida, devido a alterações na secreção hormonal, é predominante o cronotipo vespertino, que está relacionado com a tendência natural para adormecer e acordar mais tarde relativamente aos estádios anteriores do desenvolvimento. Na adolescência, os compromissos com o estudo e as obrigações sociais incluindo deveres escolares, atividades desportivas e a relação interpares nas redes sociais, tendem a ocupar tempo destinado ao sono. Mas o despertador toca a hora certa, e as aulas não têm horário personalizado. Esta é efetivamente a causa do drama vivido por alguns e que resulta em atrasos, faltas e diminuição do rendimento escolar com riscos reais na vida e no progresso académico.

Grande parte das escolas do nosso País iniciam o horário escolar às 8h00, e apesar de algumas opções horárias, não existem contemplações sobre as individualidades temporais. Alguns trabalhos portugueses replicam resultados publicados noutros locais do mundo no que concerne ao tempo de sono desta faixa etária. Porém, nenhum se debruçou sobre a relação entre padrão de sono e cronotipo, ou seja, à questão: de que forma o relógio individual afeta o padrão de sono destes adolescentes?

Os nossos resultados

Num estudo realizado a propósito do Dia Mundial do Sono de 2014, que envolveu seis escolas secundárias de zonas rurais e urbanas, de norte a sul e ilha da Madeira, procurou-se então caracterizar padrões de sono, cronotipo e estado geral de sonolência dos jovens adolescentes. Foram selecionados 354 questionários, dos 433 inicialmente aplicados, tendo os jovens respondido a questões sobre os seus padrões de sono habituais (hora de deitar, despertar e duração de sono), cronotipo e grau de sonolência geral.

Do grupo reunido, com uma maioria de raparigas (cerca de 65%), 20% dos inquiridos assumiu dormir pelo menos nove horas por dia, durante a semana, com 12,5% a afirmar dormir menos de sete horas. Quando se procurou a diferença entre o tempo de sono durante a semana versus fim de semana (permite suspeitar de tentativa de recuperação de sono perdido), observou-se que esta diferença não só era significativa mas que era mais acentuada nas raparigas (dormiam, em média, 1h20min a mais ao fim de semana relativamente aos dias de semana) do que nos rapazes (56 min a mais ao fim de semana).

No que respeita ao cronotipo, 71% revelava pertencer ao grupo intermediário e aproximadamente 20% tinha preferência vespertina. Em 11% dos casos apenas, os valores aferiam a predominância matutina.

Verificou-se também uma correlação negativa entre o grau de sonolência e o cronotipo, ou seja, aqueles com maior tendência para a matutinidade, parecem apresentar menos sonolência. Este resultado pode apoiar a noção que temos sobre as “obrigações sociais” destes adolescentes, que determinam uma hora mais tardia de adormecer, por um lado, e a necessidade de cumprir o horário escolar matutino, por outro. Este dado é também suportado pela correlação positiva verificada entre o cronotipo e a maior duração de sono (sugerindo que os matutinos dormem mais do que os vespertinos).

Conclusões

Estes dados sugerem que, nos adolescentes, a tendência para um cronotipo vespertino pode explicar a perpetuação de hábitos de sono inadequados e suas consequências, nomeadamente a sonolência excessiva. Por outro lado, este estado fisiológico é, provavelmente potenciado por padrões comportamentais típicos nesta fase da vida.

Conclui-se pois, ser importante a reflexão metódica e sistemática, com a perspetiva de serem postas em prática ações, para minimizar o efeito cumulativo de uma vulnerabilidade fisiológica, bem como a influência comportamental que a potencia e perpetua no sentido da doença.
Por Helena Cristina Loureiro e Miguel Meira e Cruz, Associação Portuguesa de Cronobiologia e Medicina do Sono